Centro Umbandista Paz e Justica
É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos…CUPJ na mídia
MATÉRIA VEICULADA NO JORNAL A TARDE
CRESCE NÚMERO DE ADEPTOS DE CULTOS AFROS EM SALVADOR
CLEIDIANA RAMOS
cramos@grupoatarde.com.br
No Centro Umbandista Paz e Justiça, localizado no Matatu, o trânsito religioso é uma história comum na vida de oito dos seus membros. Há exemplos de quem veio de denominações evangélicas, como Assembléia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), do catolicismo e de quem partilha a umbanda com outra fé.
O centro é exemplo de um dos dados mais surpreendentes da pesquisa “Mapeamento dos terreiros de Salvador”: as religiões de matrizes africanas receberam 30% a mais de adeptos em suas fileiras nos últimos 12 meses – o percentual de perda de outras religiões é de 23% em Salvador.
Os novos membros vieram, em sua maioria, das igrejas evangélicas, com destaque para as neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). O mesmo roteiro foi percorrido pelos que deixaram o candomblé.
A pesquisa foi realizada pelo Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), da Universidade Federal da Bahia, a pedido da Secretaria Municipal da Reparação (Semur) e Secretaria Municipal da Habitação, com parcerias da Fundação Palmares e Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).
TRÂNSITO – Membro do centro de umbanda, Alexandre Alves das Neves, 31 anos, chegou a ser obreiro da Iurd por cinco anos. “Achei que lá faltavam ações de caridade”, completa. Filho de mãe evangélica, ele migrou para a Assembléia de Deus, onde permaneceu por mais três anos. “Ainda assim me faltava alguma coisa”, diz. Foi então que ele conheceu o centro que é liderado pelo pai José Raimundo Trocolli, 48 anos, que conta ser de umbanda desde que era criança.
“Realmente encontrei a paz espiritual”, acrescenta.
Auxiliadora da Silva, 50 anos, era de umbanda, mas a deixou por algum tempo quando resolveu se tornar católica. “O problema é que passei por dificuldades do ponto de vista pessoal, e não encontrei lá o consolo e a solidariedade. A sugestão de padres que conversei era para rezar um salmo, quando o que a gente quer, às vezes, é uma palavra carinhosa”, diz Auxiliadora.
SOLIDARIEDADE – Para Mariuche de Oliveira Britto, 70 anos, que também já foi católica até conhecer a umbanda, fé que professa há 40 anos, a solidariedade que encontrou na casa é sedutora. “Aqui há amor e dedicação. Minhas lágrimas foram enxutas e é realmente uma casa de caridade”, destaca.
Já o caso de Eduarda dos Santos Santana, 75 anos, membro do centro, é bastante curioso. Espírita, ela foi ao local a convite de uma amiga.
Voltou outras vezes, mas não abandonou as atividades da outra fé. “Continuo com minhas atividades mediúnicas em dois centros espíritas e também aqui, pois no espiritismo não se aceita os caboclos”, conta.
O trânsito religioso para o candomblé ter alcançado percentuais mais altos do que a sua perda de adeptos para outras denominações religiosas, diz o doutorando em história social e religioso de candomblé Jaime Sodré. “Isso só mostra o quanto essa religiosidade é resistente, apesar dos desafios”, acrescenta. Para ele, que é xicarangoma (sacerdote músico) do Tanuri Junçara, de nação angola, e oloê (espécie de conselheiro) do terreiro Bogum, de tradição jeje, a conversão de quem é evangélico para o candomblé ocorre por diversas razões.
“Há nas igrejas evangélicas, como as neopentescostais, uma idéia da contribuição material para alcançar a graça. No candomblé, se você não tem recursos, a porta não se fecha”, diz.
Sodré salienta que outra marca dos terreiros é a caridade e a solidariedade.
“A maioria dos terreiros não tem tabela de preços para serviço. Se alguém precisa ser iniciado e não tem como arcar com os custos do processo, não deixará de ser feito”, completa. Para ele, um outro atrativo do candomblé é a questão da linguagem. “Os terreiros estão em comunidades carentes e onde há uma relação antiga de conhecimento. É diferente de uma igreja, onde quem lidera vem de fora e chega impondo”, acrescenta.
Além disso, há o componente da confiança, afinal, o candomblé tem a aura de religião que conserva informações ancestrais. “Como não é uma religião baseada na noção de culpa e pecado, há espaço para todos, sem distinção de cor, faixa etária ou orientação sexual. É uma religião humana”, define Jaime Sodré.



Realmente na Umbanda se encontra amor e união dos filhos de fé , como não se vê em outras religiões.